Introdução à orçamentação 3 – Fichas de rendimento

26/02/2011Biblioteca - Introdução orçamentação

Introdução

O cálculo do preço unitário de uma actividade é obtido a partir de fichas de rendimento, onde se descriminam os custos envolvidos na execução dessa actividade

O preço unitário é sempre referido à uma unidade, de forma a poder aplicar-se a qualquer quantidade de trabalho sempre que uma actividade idêntica surja em qualquer outro orçamento.

Organização das fichas de rendimento

Os recursos de uma ficha de rendimento são classificados e agrupados por seu tipo

  • Mão de obra
  • Materiais
  • Equipamentos
  • Subempreitadas

Desta forma, para além de facilitarmos muito a criação e a manutenção de uma base com preços de recursos, podermos calcular o valor total necessário por tipo em cada orçamento.

Para obter o custo directo ter-se-á de calcular o somatório das despesas relativas aos recursos que são utilizados nesta actividade. Em primeiro lugar há que definir o processo construtivo a utilizar, dependendo a solução a adoptar de uma série de factores entre os quais:

  • Os meios existentes na empresa
  • A facilidade de armazenagem e fabrico em obra
  • O seu custo (o recurso a subempreitada poderá revelar-se de menor custo);
  • Eventuais exigências de projecto (tipos de acabamento prescrito a nível de caderno de encargos).

Consumos / Rendimentos

Existem algumas tabelas publicadas que em condições médias e normais de trabalho, poderão fornecer elementos suficientemente aproximados. As mais conhecidas são:

  • “Informações sobre Custos – Fichas de Rendimentos”, do LNEC, da autoria de Costa Manso, Manuel Fonseca e Carvalho Espada,
  • “Rendimentos de Mão-de-obra na Construção de Edifícios”, de José Paz Branco.

Para obtenção de valores mais rigorosos, e mais de acordo com as condições específicas de cada empresa, recomenda-se que se faça o controlo de produtividade através do preenchimento das chamadas «partes diárias».

As “partes diárias” são impressos onde os encarregados das obras indicam, diariamente, as horas gastas por cada operário em cada tarefa. A razão entre o somatório de horas gastas num determinado período, para executar uma tarefa e a quantidade de trabalho realizado constitui um valor base, que terá tanto mais credibilidade quanto mais vezes forem aferidas em trabalhos congéneres.

No entanto, este sistema de partes diárias têm um enorme defeito que torna a informação recolhida pouco fiável. Quem as preenche é normalmente o encarregado e ele sendo juiz em causa própria (está-se a controlar a si mesmo), fará o preenchimento à medida.

Decomposição por equipas

Em muitas tabelas, o rendimento da mão de obra aparece descriminado em horas/unidade, isto é, a quantidade de horas que leva a executar determinada tarefa.

No entanto, o trabalho não é só executado por oficiais, mas por equipas constituídas por oficiais e serventes ou aprendizes e é importante atribuir percentagens a cada um.

Para facilitar, podemos utilizar equipas de 1 servente para 2 ou 3 oficiais, resultando em percentagens de 33%/67% (1:2) ou 25%/75% (1:3), mas as combinações são infinitas. Eu costumo corrigir a percentagem do servente para cima até obter um número redondo (30 ou 35%).

Custo utilizando apenas oficiais
Descrição
Un
Preço
Equipa
Rendimento
Correção
Valor m2
Pedreiro
hr
8,20 €
100,00%
0.50
1,00
4.20 €
Custo utilizando equipas
Descrição
Un
Preço
Equipa
Rendimento
Correção
Valor m2
Custo com equipa
Pedreiro
hr
8,20 €
70,00%
0,50
1,00
2.87 €
Servente
hr
5,90 €
30,00%
1,00
0.89 €
Subtotal
3.76 €

Como podem ver, é diferente usar oficiais ou usar equipas no cálculo do preço.

Até à pouco tempo, esta diferença (11.70%) era uma almofada que os orçamentos tinham, mas numa altura em que se perde e ganha orçamentos por menos de 1%, acabaram-se as almofadas, almofadinhas e travesseiros nas obras.

Metodologia

Para melhor ilustrar a forma de quantificar os gastos previstos para determinada tarefa, irá utilizar-se, como exemplo, a actividade “betonilha com 5cm de espessura e acabamento sarrafado”. Pretende-se saber quanto custa executar 1 m2 de betonilha com 5cm de espessura e acabamento sarrafado

O passo seguinte consiste em determinar os consumos dos materiais e dos equipamentos assim como os rendimentos da mão de obra:

  • Quantas horas de pedreiro são precisas para cofrar 1 m2 de betoniha
  • Quantas horas de servente;
  • Quantos m3 de cimento
  • Quantos m3 de areia
  • Quantos m3 de água

Mão de obra

O rendimento de mão-de-obra é o tempo necessário que um indivíduo ou um equipa tem de dispensar para executar uma unidade de um trabalho.

A obtenção de rendimentos de mão-de-obra constitui uma das tarefas mais difíceis para o orçamentista. Este facto resulta do facto de existirem um sem-número de factores que podem influenciar esses valores, desde a qualificação do pessoal, os processos construtivos, o acompanhamento e controlo dos trabalhos, os meios auxiliares de equipamento, as condições atmosféricas, etc.

Mão de obra
Descrição
Un
Preço
Equipa
Rendimento
Correcção
Valor m2
Fabrico da argamassa
Servente
hr
5,90 €
0.10
1.00
0.59 €
Execução
Pedreiro
hr
8,20 €
70,00%
0,50
1,00
2.87 €
Servente
hr
5,90 €
30,00%
1,00
0.89 €
Custo por m2
4.35€

Materiais

O rendimento ou consumo de materiais, são as quantidades de materiais que serão necessárias para executar uma unidade de um determinado trabalho.

Os consumos de materiais são normalmente mais fáceis de obter pois, na maioria dos casos, são ditados por razões de ordem dimensional, e noutros constituem indicações de fabricantes ou fornecedores.

Materiais
Descrição
Un
Preço
Desconto
Qte
Desperdício
Valor
Areia do rio
m3
15,00 €
0.054
15,00%
0.122 €
Cimento Portland Cinzento II
Kg
0,10 €
20,00
5,00%
2.100 €
Água
m3
1,30 €
0,0115
0,015 €
Custo
2.24€

Equipamentos

O rendimento de um equipamento, é o tempo de trabalho necessário desse equipamento para se realizar uma unidade de um determinado trabalho.

No caso dos equipamentos podem colocar-se duas situações:

  • se o equipamento é alugado ao exterior o seu custo é obtido directamente a partir do preço do fornecedor;
  • se o equipamento pertence à empresa é necessário calcular um custo correspondente a um aluguer interno, porque não seria lógico que esse equipamento fosse suportado pela primeira obra que o utilizasse, nem que as obras seguintes o utilizassem sem encargos.
Equipamento
Equipamentos
Un
Qte
Preço
Desconto
Valor
Betoneira monofásica
hr
2,00
0,45 €
0,90 €
Total
0.90 €

Sub empreitadas

No caso de trabalhos realizados por subempreiteiros o problema está mais facilitado, pois os preços apresentados são, em geral, relativos às quantidades unitárias das tarefas. Caso contrário, cai-se numa das situações já analisadas.

Sub empreitadas
Subempreitadas
Un
Qte
Preço
Desconto
Valor
Total

Cálculo do valor unitário

Resumo
Mão de obra
Materiais
Equipamento
Subempreitadas
Valor
Valor
4.35 €
2.24 €
0.90 €
7.49 €
Percentagem
58.08 %
29.91 %
12.01
100.00%
Total

Temos assim um custo unitário directo desta actividade de 7.49€/m2. Este é o chamado preços seco. É o preço que nos custa fazer um m2 de betonilha de 5cm. Quem for abaixo do seu preço seco, está a condenar a sua empresa

Obtidos os custos unitários de todos os trabalhos de uma obra, podem obter-se os custos directos de todos os trabalhos multiplicando as quantidades desses trabalhos (fornecidas pelas medições) pelos respectivos custos directos unitários.